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  • marioeduardogarcia

Nas garras da financeirização



Exasperante o noticiário de TVs e jornais brasileiros, focalizando diariamente as oscilações absurdas do mercado financeiro e suas expectativas, cujos bruscos e sucessivos altos e baixos não são causados por fatores econômicos estruturais. Refletem a política com p minúsculo e a especulação financeira, trabalhando no seu terreno favorito.

 

No curto prazo, esse foco insensato, sobre conteúdos mal explicados, alimenta a ansiedade e o comportamento de manada entre os investidores financeiros desinformados, sobretudo os de menores posses. Pior: desvia a atenção de questões críticas como políticas de longo prazo, investimento em infraestrutura e educação. Ao longo dos anos, não redireciona o atual padrão de funcionamento da economia, onde a acumulação de riquezas desenvolve-se por canais financeiros rentistas, e não pelo sólido investimento produtivo. No processo de financeirização, os mercados, serviços e indicadores financeiros tornam-se mais importantes do que a economia real, mas isso não significa que devam ser confusamente alardeados todos os dias na televisão, estressando penosamente a própria economia.

 

Rejeitemos a receita tóxica da financeirização infindável, que será ideal para agravar a indecente concentração de renda em nosso país. Apoiemos esforços para criar condições propícias à migração segura de grandes e pequenos investidores financeiros para o investimento na produção, no contexto de um mercado de capitais que mereça esse nome (1), lembrando que cada categoria terá demandas de proteção específicas. E, como primeiro passo, vamos mudar de canal quando aparecerem os economistas “do mercado (?)” com seus diagnósticos apocalípticos, apreciados por grupos sociais impropriamente designados por “elite” financeira.

 

Vamos nos alinhar aos líderes políticos e empresariais que agem pensando no bem-estar econômico e social, para todos, conforme o ensinamento de figuras exemplares de ontem e de hoje, da estirpe de um Celso Furtado, um Antônio Ermírio de Morais, um Mario Covas, um Luiz Carlos Bresser Pereira. E tantos outros, que se comprometeram com atuações mais profundas e construtivas, em prol do desenvolvimento, apoiados no princípio da governança corporativa de “reter para reinvestir” e tendo como alvo um futuro justo e próspero.

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(1) Em 2019 o então Secretário da Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues, avaliou que o mercado de capitais “deixa muito a desejar” no Brasil. “Está bem aquém da nossa economia. Temos baixíssimo nível de poupança, a intermediação financeira precisa ser melhorada e a má alocação é muito forte”, apontou. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2019-06/governo-federal-cria-grupo-para-incentivar-mercado-de-capitais


"No Brasil, o mercado de capitais é pouco desenvolvido e a financeirização é baseada na indexação dos títulos de dívida pública e no endividamento interno do setor público em um cenário de juros altos e de uma distribuição de riqueza que beneficia os detentores da dívida." em "Efeitos da financeirização sobre o investimento produtivo: evidências para as empresas brasileiras não-financeiras de capital aberto (2010 a 2016)." Isabella Oliveira Martins et al. Revista de Economia Contemporânea (2022) 26 p. 1-24


A figura usada neste post foi gerada com o Midjourney

2 comentarios


Invitado
21 abr

Realmente, Mario, você tem razão.

Mas, se servir de conforto, há o fato de que o mercado financeiro (basicamente os fundos de investimento) são responsáveis por inversões importantes em educação, saúde, agronegócio e outras áreas que, a rigor, deveriam receber investimento público.

No entanto, o custeio e a dispersão de verbas orçamentárias (via emendas parlamentares) o inviabilizam.

A mercantilização da economia é ruim, porém hoje, é o que temos

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Invitado
22 abr
Contestando a

Obrigado por seu bem-vindo comentário. As duas perspectivas – inversões relevantes dos fundos de investimento e esdrúxulas emendas parlamentares – merecem um aprofundamento. Vou tentar fazer isso um pouco mais à frente.

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