O ENTORNO DA SALA SÃO PAULO:   O QUE FAZER?

 

Mario Eduardo Garcia

Revisão  14 de julho de 2016

 

1.   Breve histórico

 

Em 1997, procurando consolidar uma série de iniciativas antes desenvolvidas, propús que elas fossem reunidas sob o “guarda-chuva” integrador de um Programa e que ele fosse batizado provisoriamente como Música em Júlio Prestes, contemplando as cinco seguintes vertentes (ou cinco projetos):

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                     Fonte: apresentação ppt ORQ120197 proj instituc.ppt, MEG, 1997

 

 

O mote chave do Programa, em todos os cinco projetos, era OBTER EXCELÊNCIA, quebrando paradigmas históricos quando necessário.

 

 

Em resumo, os projetos a desenvolver eram:

 

1. Orquestra

Desempenho musical primoroso, de nível internacional, antes impossibilitado por restrições de recursos físicos e financeiros. Difusão democrática da música sinfônica.

 

2.  Sala de Concertos

Sede da orquestra sinfônica na Estação Júlio Prestes, a ser marcada por excepcional qualidade funcional e arquitetônica.

 

3.  Escola de Música

Instituição exemplar de ensino de música, desde o nível intermediário até a preparação de virtuoses para a orquestra, no prédio do antigo DOPS.

 

4.  Melhoria do entorno urbano

Revitalização / regeneração urbana da região onde se situa o complexo Júlio Prestes.

 

5.  Resgate meninos de rua

Rede de proteção social para os menores do bairro em situação de vulnerabilidade, sobretudo face ao risco de se tornarem  dependentes químicos. 

 

Passados quase 20 anos verifica-se que o andamento da implantação dos projetos foi muito desigual, como se observa a seguir:

 

  • Os dois primeiros projetos foram executados com sucesso, inclusive quanto à difusão cultural, no âmbito de todo o estado e abrangendo grupos sociais de várias classes de renda. Não foi ainda alcançado, nem está sendo perseguido, o objetivo de tornar a orquestra uma instituição majoritariamente financiada por doações do setor privado, tal como uma orquestra filarmônica.[1]

 

  • O terceiro projeto não se implantou como previsto. Não foi esquecido, mas foi desidratado. Foi criada a chamada Academia no âmago da própria Osesp e transferida a EMESP Tom Jobim para prédio no Largo General Osório, com ulterior mudança do modelo de gestão. Não tiveram seguimento os entendimentos para realizar convênios pedagógicos com entidades internacionais de ponta como a Juilliard School de N. York ou o Curtis Institute da Filadélfia. O prédio do DOPS teve outro destino.

 

  • Quanto ao quarto projeto, foi realizado na época – somando-se aos numerosos planos anteriores concebidos para essa parte da cidade –, um estudo abrangente, puramente urbanístico, sendo afinal implantado outro empreendimento, apenas pontual, de melhoramentos locais na praça Júlio Prestes. Alguns anos depois a ambiciosa iniciativa da concessão urbanística Nova Luz na gestão 2009-2012 da PMSP encontrou forte oposição da sociedade organizada, por causas múltiplas a serem oportunamente examinadas, dentre elas o DNA privado e pioneiro do futuro modelo de implantação.[2] Esse plano do município foi ulteriormente descartado, embora seja ainda um importante repositório de idéias e de dados técnicos e econômicos sobre parte do entorno da estação Júlio Prestes.

 

  • O quinto projeto encontra eco apenas em medidas governamentais até certo ponto abrangentes, de amparo aos dependentes químicos, ou tópicas, de repressão policial ao tráfico na região da Luz, com resultados ainda insuficientes.

 

​Escapa ao alcance deste texto discutir as razões do virtual abandono dos dois últimos projetos como originalmente pensados, isto é, enquanto elementos vitais de um Programa integrado, marcado pela excelência musical, respeito à herança arquitetônica e plena inserção urbanística em uma vizinhança que seria revitalizada sem perda de seu perfil social. É possível que uma das causas tenha sido a não instituição de um organismo de apoio à governança do Programa como um todo, conforme proposto em 1996/97, capaz de, pela execução sincronizada de todos os projetos, garantir a sinergia entre os mesmos e alinhá-los ao objetivo central de Qualidade. Na falta desse aparato gerencial, o desafio representado pela espinhosa execução dos projetos 1 e 2 – dado o seu carater de ruptura programática, até revolucionária para padrões brasileiros – consumiu todas as atenções e recursos. A vitória na principal “up hill battle” foi conquistada às custas de “feridos” que foram deixados pelo caminho.

 

Em decorrência desses fatos constata-se hoje que, não obstante os êxitos alcançados, as lacunas obscurecem severamente o alcance previsto no Programa original e inibem até o pleno reconhecimento dos projetos 1 e 2 como conquistas socioculturais de todas as comunidades a que se destinavam.

 

2.  Objetivo desta proposição e principais diretrizes

 

Pretendemos explorar a possibilidade de “ressuscitar” os projetos 4 e 5 do Programa na sua inteireza social e urbanística, obviamente com as adaptações que a passagem do tempo (desde 1996/97) recomendar. Em qualquer hipótese queremos preservar nesses dois projetos a idéia de “EXCELÊNCIA”, que era o emblema da concepção inicial, como chave para resgatar o potencial completo do Programa.

 

Um dos aspectos centrais de qualidade dos projetos 4 e 5 será o respeito à herança  histórica e aos valores caros às comunidades afetadas, em especial as aspirações dos moradores, pais de famílias e comércio formal e informal das vizinhanças da estação Júlio Prestes. Todos os cuidados deverão ser tomados para que os projetos 4 e 5 promovam uma atmosfera de cultura e coesão social, sem provocar a indesejável perda de traços positivos da identidade dos lugares e sem provocar gentrificação. Os projetos devem ser exemplares nesses aspectos, tornando-se referências obrigatórias no futuro, como são hoje, em seus campos, a Sala e a Orquestra.

 

O primeiro passo aproveitará o impulso dado pelo projeto especial de urbanização com foco habitacional / cultural  que o GESP empreenderá no terreno da antiga estação rodoviária de São Paulo e em seu entorno, para focalizar também a facilitação do acesso à Sala por transporte coletivo, a partir das estações Luz do Metro e da CPTM, tudo isso contribuindo para proporcionar uma irradiação positiva de efeitos sociais e urbanísticos. Enquanto se concretiza essa fase se desenvolvem os primeiros passos da subsequente (Fase II) e se estabelecem os seus principais condicionantes, a serem levados em conta precocemente, para que as opções adotadas na Fase I não venham a prejudicar os objetivos de maior fôlego do Programa.

 

3.  Delimitação espacial

 

Não julgamos possível fazer desde já uma demarcação precisa da área física de interesse dos projetos 4 e 5. É complicado. Esse território não pode ser muito vasto, pois escaparia da esfera de um Programa disseminado localmente pelos projetos 1 e 2, nem muito estreito, desprezando oportunidades ou ignorando horizontes e sonhos dos que moram, trabalham ou apenas gravitam nos arredores. Uma outra dificuldade é que os novos projetos são público-privados. Os objetivos das duas partes nem sempre se coadunam. E, na esfera dos governos, Prefeitura e Estado frequentemente têm dificuldade  para se entender.

 

Propomos assim, preliminarmente, simplificar a averiguação, sem perda de substância. Para tanto serão consideradas, em momentos sucessivos, duas abrangências espaciais para o projeto 4, a saber:

 

  • Fase I

 

Uma área capaz de hospedar os seguintes objetivos e projetos:

 

(a) faciltar e tornar aprazível o acesso - via transporte coletivo e trajeto complementar a pé - às facilidades de entretenimento e culturais do Programa como um todo, desde as estações Luz do Metro e da CPTM. Incluiria também o acesso às quadras lindeiras no corredor da rua Mauá e a quadras contíguas à praça Júlio Prestes, e

(b) sediar os seguintes projetos âncora: (b1) projeto urbanístico de fundo habitacional / cultural do GESP com aproveitamento da quadra da antiga rodoviária e adjacências, (b2) novas instalações da Escola de Música Tom Jobim nesse mesmo terreno, (b3) Memorial Cidade - Ferrovia,  e (b4) Centro de Entretenimento na rua Mauá, por exemplo, algo similar ao Circo Voador do Rio de Janeiro junto aos Arcos da Lapa.

  • Fase II

 

Uma área maior de ressonância cultural da Luz, Santa Efigênia e Campos Elísios, por exemplo, desde o Museu de Arte Sacra até a Igreja de Santa Efigênia, com perímetro a estudar / definir.

A delimitação pormenorizada fica para a fase II. Com o andamento dos trabalhos, ouvindo os “stakeholders” e analisando, discutindo, refletindo, chegaremos à demarcação final da área de interesse.

 

Em linhas gerais o projeto 5 acompanha esse delineamento, mas as suas fronteiras são fluídas, devido à localização não tão determinística dos grupos sociais a serem considerados.

 

4.  Alguns possíveis conteúdos (preliminar, para discussão)

 

Na formulação das temáticas do Programa o principal desafio será preservar o compromisso absoluto com a idéia de EXCELÊNCIA, que não deve ser descurada em nenhum momento. Esse intento não é discrepante, pelo contrário, é consistente com uma estratégia pragmática de ir avançando aos poucos, dando cada passo quando financeiramente exequível e só se o anterior tiver sido concluído com qualidade total e for socialmente validado pelos públicos afetados. Não basta ter projetos bons e implementações corretas, ambos devem ser excelentes.

Vale lembrar que essa estratégia também esteve presente na implantação da Sala SP. Embora não tenha sido planejada com antecedência, impôs-se tacitamente: procurou-se concluir com sucesso absoluto o Grande Hall e o estacionamento, o primeiro com qualidade comparável às melhores salas do mundo, e em prazo recorde de implantação, para depois ir tratando aos poucos dos periféricos.   

 

Observado esse marco orientador as idéias a seguir apresentadas são meramente ilustrativas, para discussão. Deve-se sempre levar em conta a ótima acessibildade da região, pois conta com 2 linhas de metrô e várias do trem metropolitano.

 

Cada fase deverá ser subdividida em etapas viáveis, a serem oportunamente detalhadas, tendo como referência o seguinte:. 

  • Fase I

           Conforme acima, podem se discernir, nesta fase, pelo menos duas frentes de trabalho :

                     Etapa (a): Intervenções nos acessos e correlatas

 

Há duas alternativas que não se excluem para o acesso à Sala SP a partir das estações Luz do Metro e da CPTM: por dentro do complexo metroferroviário (conforme estudos da CPTM) e pela rua Mauá. Nos dois casos considerar, onde aplicável, as seguintes providências: iluminação diferenciada do corredor, sinalização para pedestres, segurança pública 24 x 7, arborização intensa nos passeios, recuperação de terrenos para áreas verdes, iluminação especial das fachadas JP, Estação Pinacoteca e estação da Luz, calçadas impecáveis, limpeza pública exemplar, relógios das torres das estações sempre marcando a hora certa, identificação dos imóveis a preservar e/ou restaurar fachadas na rua Mauá, ver se há monumentos (estátuas) nos depósitos da Prefeitura que possam ser harmonicamente instalados na área e realizar outras intervenções de baixo custo que venham a ser identificadas e possam ser providenciadas com rapidez.

Etapa (b): Início das medidas para os projetos âncora mencionados no item 3 acima:

  • Os projetos (b1) e (b2) -- Habitacional e Escola de Música -- serão desenvolvidos conforme as estratégias e planos da Secretaria da Habitação do estado de SP, em coordenação com as demais Secretarias interessadas, especialmente a de Cultura. Tendo em vista o prolongamento previsto da rua Santa Efigênia poderia ser estudada a hipótese já aventada de criar na área um polo de incubação de start ups de informática, gerando inclusive  sinergia com o comércio especializado daquela rua.

  • O projeto (b3) é uma proposição da especialista em museologia Maria Inês Dias Mazzoco e do arquiteto Lúcio Gomes Machado (gm arquitetos associados), que desenvolveram os conceitos e o estudo de concepção desse empreendimento, conforme indicado no item 5 abaixo.

  • O projeto (b4) é uma idéia apenas incipiente, que objetiva implantar projeto que traga vida e vibração saudáveis para as calçadas dos dois lados da rua Mauá junto à estação da Luz, inclusive à noite, com as limitações necessárias para não perturbar o repouso dos que residem nas proximidades. Em princípio o projeto poderia ser implantado na quadra junto à rua Mauá onde hoje existem principalmente estacionamentos, que abrigaria uma casa de shows, por exemplo tipo Circo Voador do Rio de Janeiro, com toda a sua agenda de entretenimento – shows, exibições de formações da OSESP, banda militar – e de ensino e promoção social.

Tanto em (a) como em (b) acima, em todos os espaços públicos disponíveis próximos haveria jardins com coretos, mini-concertos abertos, fontes luminosas sempre funcionando, mercado de pulgas semanal, creche, mini posto de saúde, policiamento, etc. Examinar também a possibilidade de associar programas correlatos da TV Cultura.

 

Em paralelo às implantações físicas deverão ser tomadas medidas institucionais, com destaque para o estabelecimento de um sistema de governança de preferência público - privado, com a presença cooperativa do GESP e da PMSP, que se encarregaria da gestão superior do Programa como um todo, tanto nas fases de implantação como de operação, tendo como escopo garantir o pressuposto de EXCELÊNCIA e a sua perenidade sustentável, independente das mudanças de governo. Nesse sistema deverão comparecer do lado privado, os empreendedores dos projetos, as associações de moradores e de comerciantes locais e as entidades públicas e do terceiro setor especializadas no trato adequado dos problemas de saúde pública (pessoas em situação de dependência química) e  de segurança (tráfico de drogas).  

 

  • Fase II (subsídios iniciais)

 

Nesta fase uma ampla vizinhança -- Luz, Campos Elíseos, Santa Efigência -- será estimulada para exercer com EXCELÊNCIA sua vocação habitacional, de entretenimento, cultural e tecnológica (informática). Cobrirá uma área que, grosso modo, se situa a oeste de um eixo que se estende desde o Museu de Arte Sacra até a altura da Igreja de Santa Efigênia.

O projeto terá que enfrentar o estigma histórico representado pela desacreditada e estéril sequência de iniciativas que ao longo de décadas se propuseram a transformar essa área da cidade, sem resultados territorialmente abrangentes. Hoje, todavia, o cenário parece ser propício. Além dos sucessos pontuais da Pinacoteca, da Sala São Paulo, da Estação da Luz, o início do vasto projeto habitacional do GESP traz consigo um impulso realizador que em hipótese alguma deve ser desperdiçado. Nessa perspectiva, aparece como indispensável a formação de uma coalizão público-privada para a gestão do projeto, a ser formada o mais cedo possível, talvez com constituição similar ao dispositivo de governança da Fase I.   

Os conteúdos do projeto como um todo deverão ser definidos oportunamente, em paralelo à consolidação das iniciativas da Fase I. Deverão inclusive ser reexaminadas as idéias contidas nos substanciosos estudos sociais, urbanísticos e de fundo cultural já realizados para a região, por especialistas, empresas contratadas, órgãos das três esferas de governo. Deverão ser especialmente averiguadas as razões dos insucessos experimentados e êxitos pontuais alcançados.

 

Sem prejuizo desses estudos e outras propostas alinhavam-se a seguir algumas idéias a serem objeto de consideração.  

  • ​​Verificar se com a implantação do projeto habitacional HIS e HMP do GESP da Fase I, ainda é necessária a execução do projeto  da  ZEIS 3 previsto no Plano Diretor do município. De todo modo, qualquer projeto habitacional deverá criar ambiente geral acolhedor, com inserção urbana que sirva de exemplo para esse tipo de empreendimento: incentivos para abordagem reabilitadora para os demais imóveis da área desta fase (melhorar, reabilitar, em vez de demolir e construir o novo), com especial atenção para as oportunidades oriundas do comércio da rua Santa Efigência. Checar oferta de escolas nos vários níveis, creches, mercados populares, postos de saúde. Desenvolver estratégias fundiárias, regulatórias e outras para retenção da população de baixa renda no bairro, tanto inquilinos como proprietários moradores e comerciantes. A valorização imobiliária quase inevitável deverá ser ao menos parcialmente apropriada por esses segmentos. Empreender com eficácia as estratégias concebidas na Fase I para repressão ao tráfico de drogas e assistência adequada aos que estão em situação de dependência química.

  • Estudar a viabilidade da integração da Estação Júlio Prestes com a rua José Paulino e o Jardim da Luz mediante transposição do pátio ferroviário da CPTM. Nessa hipótese, examinar a possiblidade de aumentar o estacionamento subterrâneo da Sala São Paulo,  e ajardinar a laje superior junto à Sala SP, embelezando a retaguarda da mesma.

  • Estudar um destino para o belo Palácio dos Campos Elísios, abrindo-o para visitação e/ou demais atividades culturais.

 

Nota: não abordamos a questão dos empregos porque a relação emprego/habitante já é elevada nessa área.

O elenco acima de sugestões preliminarea para as fases I e II contou com colaborações de profissionais e gestores de projetos elaborados no últimos anos e correlatos com o entorno das estações Júlio Prestes e Luz, a Sala São Paulo e a OSESP.

 

 

5.   Memorial Cidade - Ferrovia

Nota: O texto abaixo é uma síntese feita pelo titular deste site da detalhada proposta para o empreendimento formulada por seus autores Maria Inês Dias Mazzoco e Lúcio Gomes Machado.

 5.1. Antecedentes

História, economia e urbanização do estado de São Paulo estão estreitamente vinculadas às ferrovias. Destaca-se a São Paulo Railway (SPR) que, pioneiramente em 1867, inaugura sua primeira linha vencendo os 860 metros de desnível entre o Planalto e o Porto de Santos, com o até hoje admirável sistema funicular. Décadas depois, nos anos 1930, uma segunda empresa — a Sorocabana – venceria o mesmo desafio topográfico, adotando traçado que permitiu deslocamentos pela tecnologia de aderência. As estações da Luz e Júlio Prestes são admiráveis testemunhos urbanos dessas realizações.

Com a decadência do sistema ferroviário ocorreu também a degradação dos entornos desses marcos na cidade. Além disso foi apagada a lembrança da ferrovia e de seu papel fundamental nos tempos áureos. E daí para a frente não houve recuperação urbana e memorialística, nem mesmo com a recente transformação desse local em epicentro dos sistemas metroferroviários de transporte metropolitano de passageiros da região metropolitana.

5.2. Acervo

Com notáveis exceções, o grande e valioso acervo ferroviário recebeu pouca atenção quando das concessões de privatização da malha ferroviária brasileira. Ocorreram apenas iniciativas isoladas de levantamentos e sistematizações de registros e de restauro de imóveis e de material rodante, alguns contando com recursos de renúncia fiscal.

Em sentido inverso, a atenção ao patrimônio histórico industrial, tem crescido significativamente nos últimos anos, em todo o mundo. Inicialmente, vinculada ao estudo das tradições manufatureiras européias, logo incorporou o interesse pela recuperação do patrimônio ferroviário. Órgãos responsáveis pela operação ferroviária, particulares e instituições governamentais puderam organizar dezenas de museus ferroviários no hemisfério norte.

No Brasil algumas iniciativas importantes foram descontinuadas. Por exemplo, no âmbito da "ANTP-Cultural", em 1999, foi elaborado um Guia dos Museus de Transporte Público, que nos proporciona um quadro sobre o tema à época. Fica evidente que poucas instituições têm museografia adequada, com a necessária interatividade com o público. São normalmente coleções estáticas de objetos e equipamentos de pequeno porte e fotos relacionados com a ferrovia. Poucos contam com material rodante restaurado e pouquíssimos com linha de estrada de ferro em operação, possibilitando a vivencia, em escala natural, da magia da ferrovia.

Uma outra vertente que dá origem à presente proposta filia-se à relevância atual dos museus de tecnologia, aliada, neste caso ao conceito de preservação de "caminhos" significativos para a compreensão da história de uma região. São notáveis os exemplos do Caminho de Santiago de Compostela ou da Santa Fé Trail, que atraem estudiosos e turistas de todo o mundo.

5.3. O Memorial Cidade – Ferrovia

O núcleo proposto deverá ser um espaço vivo e interativo, situado entre as estações Júlio Prestes e Luz, voltado para a compreensão da memória do passado, da vivência do presente e da visão do futuro, devendo contar ainda com sua extensão fora de seus limites físicos com a utilização de internet e outros meios de comunicação áudio visual.

A ferrovia está ali presente e em plena operação (hoje para transporte de passageiros), resultado da visão empreendedora de investidores, da capacidade de técnicos quase sempre formados no seio das empresas ferroviárias e do trabalho de contingentes de operários. Foi e continuará sendo um vetor fundamental para a nossa economia, celeiro de importantes indústrias fornecedoras de insumos e equipamentos de transporte, objeto de criação de tecnologia nos mais variados campos e cenário para a implantação de relações de trabalho pioneiras.

A implantação do Memorial no sítio proposto permitirá a explicitação dessas peculiaridades e a valorização de relações entre a ferrovia e a cidade para o público. Vale lembrar que o sítio proposto foi o local da primeira estação da Estrada de Ferro Sorocabana, interessante edifício com arquitetura característica das estações pioneiras, demolido há cerca de quatro décadas, quando o patrimônio ferroviário não era suficientemente valorizado. Reconquista-se, assim, este espaço único para a ferrovia, que manterá a sua história viva, uma vez que todos os outros antigos edifícios ferroviários têm atualmente outros usos.

 

Descrição da proposta Arquitetônica

 

Foram propostos três níveis para o edifício:

 

Nível Inferior:

  • Exposição de longa duração sobre a história da ferrovia em São Paulo e no Brasil;

  • Equipamento ferroviário e material rodante — carros restaurados, locobreques, etc. (três ou quatro unidades poderão ser abrigadas simultaneamente e poderiam ser periodicamente substituídas por novas unidades restauradas);

  • Auditório e salas para seminários e aulas;

  • Plataforma de embarque para trem turístico e/ou de ligação com outros centros de memória ferroviária;

  • Oficinas de manutenção e áreas de apoio.

Nível térreo

  • Acesso;

  • Exposição de longa duração sobre a economia e a urbanização de São Paulo e suas relações com a ferrovia;

  • Exposições de curta duração sobre a nova urbanização em implantação, investimentos, produtos e serviços desenvolvidos na região;

  • Terraço: belvedere para o pátio ferroviário.

Nível superior

  • Exposições de curta duração sobre os novos projetos para o modal ferroviário e vínculos com a indústria de equipamentos e material rodante;

  • Estações de trabalho para acesso remoto ao acervo documental sobre a ferrovia conservado no Arquivo do Estado;

  • Terraço: belvedere para o pátio ferroviário.

A forma arquitetônica proposta remete às antigas gares ferroviárias e permitirá, por sua transparência, a visão da Estação da Luz, da atual Estação Pinacoteca e da Sala São Paulo (antigos edifícios da Sorocabana), além da apropriação museológica das linhas em operação, como forma de compreensão e promoção do modal ferroviário.

Pretende-se que o espaço destinado a exposições de curta duração possa abrigar projetos relacionados com o transporte sobre trilhos, com o patrocínio de seus promotores, de forma a contribuir para custeio da operação do Memorial, somando-se a patrocínios institucionais e da operação de trens turísticos que partirão de sua plataforma, além da locação dos espaços para eventos.

6.  Próximos passos

 

  • Exame do Plano Diretor (PD) do município. Estudo interno, preliminar.

 

Verificar a possivel subdivisão da área da Fase II dentro do TIC – Território de Interesse Cultural Paulista-Luz do PD e correspondentes incentivos. Ver tb incentivos federais e estaduais procultura.

 

  • Financiamento das intervenções

 

Dar um balanço das fontes potenciais identificadas. Preparar quadro rudimentar de fontes e usos financeiras, especialmente privadas.

 

  • Legitimar institucionalmente a iniciativa com Estado e Prefeitura

 

Checar iniciativas em curso e referendar os itens 2, 3, 4 e 5 do texto acima. Identificar possíveis líderes do Programa no Estado e na Prefeitura 

 

  • Legitimar socialmente a iniciativa com  associações de moradores, de lojistas, de ambulantes e outros.

 

Discussão começa com uma folha em branco, tendo apenas as diretrizes dos itens anteriores como pano de fundo. Incorporar gradativamente as contribuições.

 

  • Atrair apoios

 

Viva o Centro, instituições patrimônio histórico e cultural, Fecomércio, FIESP, ONGs, universidades públicas e privadas, fundos de investimento com viés social, BID e BIRD, comunidade de urbanistas, etc etc

 

  • Esboçar Fase I e princípios da Fase II

 

É a continuidade dos trabalhos.

 

 

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[1]          Idealmente, uma participação financeira apenas minoritária do governo, somando-se ao comodato do imóvel, teria como contrapartida o atendimento dos objetivos públicos já hoje em marcha, proporcionando difusão geográfica desconcentrada e socialmente não elitizada da música sinfônica.

 

[2]          Essa afirmação não desqualifica o modelo de concessão urbanística em sí, poderoso instrumento de revitalização de áreas da cidade. Apenas constata os maiores obstáculos para a sua aplicação no corpo da iniciativa acima mencionada, que dificilmente poderiam ter sido antevistos em toda a sua plenitude.

 

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Anexo

 

Perímetro aproximado da Fase  I  e Projetos Âncora

Mario Eduardo Garcia   --     m.e.garcia@uol.com.br

Reflexões sobre políticas públicas, mobilidade e logística